O que é preciso saber para iniciar um processo de psicanálise? A resposta que dou é franca e clara: nada. Inclusive, quanto menos souber, melhor. O que não significa dizer que quanto mais ignorante melhor. A ideia é conseguir desprender-se um pouco do que se (acredita que) sabe. Afinal, se eu busco saber algo novo, preciso partir da ideia de que: o que sei não responde suficientemente bem. Ou melhor ainda: o que suponho saber não responde bem. A queda da suposição de saber paira sobre o processo todo.
Se o pensamento for suficiente para dar conta do que em mim faz questão, então que diabos mais estou procurando? A psicanálise vem dar conta justamente do que foge da pretensa estruturação premeditada e calcada numa lógica aristotélica. Quando eu sei o que eu preciso fazer, mas não faço, quando falo diferente do que pensei, lapsos, atos falhos, palavras trocadas, duplos sentidos e mal entendidos. O que foge da lógica comum, aqui se pode operar uma psicanálise.
“Não era isso que eu queria dizer”, mas foi o que disse.
“Não que eu seja ruim”, mas por algum motivo é concebível pensar que o seja.
“Eu sei o que preciso fazer, mas não faço”, essa fala por si só deixa claro como a questão não é sobre entendimento lógico, não é só sobre mera compreensão, é algo além.
Onde o pensamento segue a ordem imposta, fica encoberto o que foge da ordem. Quero encobrir o que de fato disse, e encubro explicando o que eu queria dizer “de verdade”; quero encobrir a ideia claramente concebível de que eu sou ruim com uma simples negação. A psicanálise é possível precisamente onde, na fala, escapa alguma coisa que eu logo quero negar ou deixar de lado – porque disse errado, porque soa feio, porque é ofensivo ou porque me faz parecer diferente do que gostaria de ser. Tudo isso é ativamente desconsiderado naquilo que chamamos: resistência. Há dificuldade em aceitar isso que não é esperado, e é sobre essa dificuldade que uma psicanálise é possível. A análise é, em última instância uma análise das resistências.
O sonho foi um marco inicial na ideia de trabalhar com o que nos ocorre sem a devida premeditação. E é notório como até hoje comumente se pensa a interpretação de sonhos num sentido muito fantasioso e até absurdo, o que talvez mostre uma grande resistência (generalizada) em aceitar que há algo de si no que vem de fora do controle do Eu. Elevar ao absurdo facilita o ato de deixar de lado. Convém explicitar que interpretar um sonho não é atribuir-lhe significado diverso do que nele apareceu, sonhar com cobra não significa que tem alguém te traindo (como a analogia que se faz ao dizer que alguém é traiçoeiro como uma cobra) e nem nada relacionado ao pênis (como uma analogia anatômica entre a cobra e o pênis). Cabe aqui dizer algo dessa figura de linguagem, o que é uma analogia? É um “como se fosse”, e isso já deixa bem claro que não é. Se é “como se fosse”, então não é, logo não é disso que se trata.
A interpretação incide sobre O QUE se diz e sobre COMO se diz do sonho (ou qualquer outra formação do inconsciente). Talvez a cobra esteja deslocada de qualquer significado imagético ou comparativo, e todo esse simbolismo esteja de fato encobrindo algo muito mais simples e provavelmente mais difícil de aceitar. E se cobra for um verbo? Quem cobra? Trata-se de um exemplo didático, mas não menos valioso por isso. É uma ideia ousada a de incluir e aceitar os próprios deslocamentos da linguagem no discurso, porém essa é a base da psicanálise: incluir o inusitado da minha fala na cadeia que me constitui.
Um chiste (ou trocadilho) produz o efeito de riso justamente por esse significado diverso do esperado, a gente ri do sentido que é recalcado, daquele sentido que se exclui ao falar seriamente, porque não pode rir ali. Isso marca a ideia de que há que se excluir algo para que a vida em sociedade seja possível. Daí nosso mal estar na civilização. Há que se deixar algo de lado para manter uma boa convivência, com isso perdemos muitos sentidos daquilo que falamos e do que escutamos. Mas perdemos no nível consciência, pois no inconsciente os efeitos destes sentidos não cessam. Uma psicanálise é, inclusive, o lugar de escutar isso que, em outros lugares – por não ter espaço – muitas vezes vira sintoma. A psicanálise escuta aquilo que percebemos como desprovido de significado, para percebermos que só não tem significado ali onde o colocamos.
Assim temos que a psicanálise incide sobre o que não se sabe, e o não saber é a via pela qual se busca saber. O que é recalcado, e aqui podemos pensar em significados e sentidos recalcados, é deslocado, cresce, volta, ressurge. Mas ele pode ser escutado de forma mais consciente, ou menos sintomática. E é a isso que se propõe uma psicanálise.
